Blindagem na Gestão de Contratos: 5 riscos que você precisa eliminar (e por que a medição está entre os 3 mais críticos)

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Existe uma crença perigosa em muitas empresas: “se o contrato está assinado, o risco está controlado”.
Na prática, o risco começa a crescer exatamente depois da assinatura — quando o contrato entra na rotina, ganha urgência, sofre mudanças e passa a ser operado por pessoas, sistemas e prazos.

Blindagem, aqui, não é burocracia. É mecanismo de proteção na gestão de contratos para garantir três coisas simples:

  1. entregar valor,
  2. pagar corretamente,
  3. reduzir disputa e passivo.

Neste artigo, compartilho os 5 riscos mais comuns que vejo em diagnósticos e auditorias — e como blindar cada um com ações práticas. E sim: medição está no Top 3, porque é onde o dinheiro vaza sem “barulho” até virar crise.

1) Escopo cinza: quando “tá entendido” vira custo e conflito

O primeiro risco costuma aparecer antes mesmo do kickoff: escopo mal definido, escopo criado pelo copia e cola, escopo que nasceu no achismo e sem estratégia, entre outros.
Quando o contrato descreve “atividades” mas não define “entregáveis aceitos”, a cobrança vira interpretação. E interpretação, em contrato, é combustível para pleito.

O que normalmente dá errado:

  • Entregáveis genéricos (“relatório”, “suporte”, “manutenção”, “atendimento”).
  • Critérios de qualidade subjetivos (“adequado”, “satisfatório”, “conforme necessidade”).
  • Ausência de limites (o que está fora do escopo).
  • Falta de premissas e restrições (acessos, janelas operacionais, interfaces, insumos do cliente).

Como blindar (na prática)

  • Para cada entregável, defina Critério de Aceitaçãoo que prova que foi entregue?
  • Crie uma seção “Fora do escopo” (com exemplos reais).
  • Defina premissas e o que acontece quando não são atendidas.
  • Padronize anexos técnicos: especificação, memorial, desenhos, lista de materiais, requisitos de segurança e QSMS.

Regra simples: Se não dá para auditar, não dá para cobrar.

2) Governança fraca: quando ninguém decide e todo mundo opina

Mesmo com bom escopo, a execução quebra quando não existe governança clara.
Sem papéis, ritos e alçadas, o contrato vira uma colcha de retalhos: cada área decide um pedaço, o fornecedor explora as brechas e o gestor vive apagando incêndio.

Sintomas clássicos

  • Mudanças sendo combinadas “no corredor” e oficializadas tarde demais.
  • Aceites e liberações por e-mail/WhatsApp sem trilha de aprovação.
  • Fiscalização sem autoridade (cobra, mas não valida nem decide).
  • Pagamentos aprovados por quem não tem visão técnica.

Como blindar

  • Defina papéis e responsabilidades (RACI): quem solicita, quem valida, quem aprova, quem informa.
  • Estabeleça alçadas (mudança de escopo/prazo/custo).
  • Crie ritos: reunião de performance, reunião de medição, comitê de mudanças.
  • Formalize o fluxo de comunicação (notificação, cura, escalonamento).

Regra simples: sem dono de decisão, o contrato não tem direção.

3) Medição mal desenhada (TOP 3): onde o dinheiro vaza e a disputa nasce

Medição é o “caixa” do contrato.
É o ponto em que a execução vira pagamento — e qualquer fragilidade aqui gera pagamento indevido, glosa indevida, retrabalho e conflito.

A medição ruim tem um efeito perverso: ela cria perda “silenciosa”.
No começo parece só um ajuste operacional; depois vira auditoria, discussão, pleito, paralisação e desgaste.

O que normalmente dá errado

  • Critérios subjetivos (“parece ok”, “está funcionando”).
  • Falta de evidência (sem checklist, sem anexos, sem rastreabilidade).
  • Base de cálculo confusa (unidade, composição, produtividade, taxa, índice).
  • Janelas de corte e prazos mal definidos.
  • Ausência de regra de glosa e reprocesso.
  • Aprovação sem segregação (quem executa aprova / quem aprova não confere).

Como blindar a gestão de contratos (checklist prático)

1) Critério objetivo
Defina fórmula, unidade, tolerância e referência (norma / especificação / desenho / padrão interno).

2) Evidência obrigatória (padrão mínimo)
Checklist por atividade, fotos, relatórios, log de sistema, certificados, medições físicas, apontamentos, diário de obra/operação.

3) Trilha de aprovação e segregação
Quem confere? Quem valida? Quem aprova? Quem libera pagamento?
(Se tudo passa por uma pessoa só, o risco é enorme.)

4) Regras de glosa e reprocesso
Prazo para contestação, documentação necessária, rito de revalidação e impacto no pagamento.

5) Calendário fixo e data de corte
Janela de medição, prazo de envio, prazo de validação e data de pagamento — com exceções definidas.

Regra de ouro: Sem evidência, sem aceite. Sem aceite, sem pagamento.

4) Mudança sem trilho: o contrato muda na prática, mas não muda no papel

Mudança é inevitável: urgência operacional, demanda do cliente, condição de campo, restrição de acesso, alteração de volume.
O risco não é mudar — é mudar sem controle.

O que acontece quando não há trilho

  • O fornecedor executa “extras” e cobra depois.
  • O cliente pede ajustes sem avaliar impacto.
  • O gestor perde a linha de base (escopo original vs. atual).
  • O contrato acumula passivo.

Como blindar

  • Crie um processo simples de gestão de mudanças (Change Request):
    • descrição do pedido,
    • justificativa,
    • impacto em prazo/custo/risco,
    • aprovação,
    • formalização (aditivo/ordem de mudança/termo).
  • Defina quais mudanças podem ser aprovadas no nível tático e quais exigem comitê.
  • Padronize modelos (1 página) para não virar burocracia.

Regra simples: mudança sem registro vira passivo.

5) SLA e penalidade “de prateleira”: quando mede errado, não corrige nada

SLA é a espinha dorsal da performance — mas muitas empresas implementam SLA como “texto padrão”.
O resultado é um SLA que não mede o que importa, não tem fonte de dados e não gera consequência.

Como isso falha no dia a dia

  • Fórmula não definida.
  • Fonte de dados inexistente ou manual demais.
  • Indicadores sem periodicidade.
  • Penalidade inaplicável (ou nunca aplicada).
  • Notificação e “cura” não seguem rito.

Como blindar

  • Para cada SLA, defina:
    • fórmula + tolerância,
    • fonte de dados (sistema/relatório),
    • responsável pela apuração,
    • periodicidade,
    • rito de notificação + plano de ação + cura,
    • consequência executável (penalidade, retenção, bônus/malus).
  • Garanta que o SLA mede o que é crítico: disponibilidade, prazo, qualidade, segurança, reincidência e satisfação do usuário (quando aplicável).

Regra simples: SLA sem dado e sem consequência não é SLA — é decoração.

Conclusão: o contrato se prova na rotina, não na assinatura

Um contrato robusto não é o “mais longo”.
É o que tem operação clara, evidência, governança e medição funcionando.

Se você blindar esses 5 pontos, você:

  • reduz ruído com fornecedor,
  • evita pleito,
  • melhora performance,
  • e transforma contrato em resultado.

Márcio Barros
Especialista em Gestão de Contratos e Suprimentos
Márcio Barros é referência em Gestão de Contratos e Suprimentos, com mais de 20 anos de atuação em ambientes complexos e intensivos em risco, apoiando empresas a transformar contratos em resultado, governança e previsibilidade. Fundador da MPH Consultoria e idealizador da Academia de Contratos, lidera projetos e formações voltados à elevação de maturidade, redução de perdas e disputas, fortalecimento de compliance e melhoria de performance na relação com fornecedores. Reconhecido por uma abordagem prática e executiva, Márcio atua na estruturação de modelos de governança, medição blindada, controle de mudanças e indicadores que aceleram decisões e protegem valor ao longo de todo o ciclo de vida contratual.
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Apresentamos o caso da Samarco Mineração, uma joint venture da Vale e da BHP Brasil, que passou por um processo de Transformação Digital para otimizar suas operações. Por meio da digitalização completa do processo de medição mensal de serviços, utilizando o SAP e a automatização de tarefas, a Samarco obteve ganhos significativos em produtividade e eficiência, além de uma economia estimada em mais de R$ 2 milhões por ano. Descubra como a Transformação Digital impulsionou a Samarco rumo à excelência operacional e por que essa abordagem pode ser interessante para outras empresas do setor.

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