
Nos últimos anos, temos observado uma estratégia agressiva da China para ampliar sua presença no mercado brasileiro, especialmente no setor elétrico. Essa expansão não se limita a investimentos legítimos: há evidências crescentes de práticas de dumping, ou seja, venda de produtos a preços artificialmente baixos para conquistar participação de mercado e fragilizar a indústria nacional.
O dumping é uma prática comercial desleal que consiste na exportação de produtos para outro país a preços inferiores ao praticado no mercado doméstico ou até abaixo do custo de produção. Essa estratégia visa conquistar rapidamente participação de mercado, eliminar concorrentes locais e, posteriormente, estabelecer posição dominante para impor preços mais altos. Por isso, é considerada predatória e regulada por acordos internacionais, como o Acordo Antidumping da OMC. (Acordo sobre a Implementação do Artigo VI do GATT 1994)
Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o setor elétrico concentrou 34% dos investimentos chineses no Brasil em 2024, somando US$ 1,43 bilhão, um aumento de 115% em relação a 2023. No acumulado desde 2007, 45% de todo o capital chinês investido no Brasil está no setor elétrico, incluindo geração, transmissão e distribuição.
Além dos ativos estratégicos, há forte dependência de insumos e equipamentos elétricos importados da China:
O Departamento de Defesa Comercial (Decom) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) iniciou a maior investigação antidumping já registrada no Brasil, envolvendo 25 grupos de produtos siderúrgicos chineses (NCMs) — superando o recorde anterior de 23 NCMs. O processo busca apurar a prática de dumping nas exportações de produtos laminados planos de ferro ou aço, vendidos ao Brasil a preços inferiores ao valor normal. A investigação, que pode durar entre 10 e 18 meses, inclui consultas públicas, escuta das partes interessadas, análises técnicas e verificação in loco. Caso confirmada a prática e o dano à indústria nacional, poderão ser aplicados direitos antidumping por até 5 anos.
Além do aço, o MDIC abriu processos para apurar dumping em fibras de poliéster e não tecidos (nonwovens) originários da China. Esses materiais são amplamente utilizados em setores estratégicos, como indústria têxtil, higiene pessoal e aplicações industriais, e sua venda a preços artificiais ameaça a sustentabilidade da produção nacional. A prática, considerada desleal pela Organização Mundial do Comércio (OMC), reforça um padrão que pode se estender para segmentos elétricos e eletrônicos, dada a escalada das importações chinesas e a pressão por preços abaixo do mercado.
O dumping não é apenas uma questão de preço: faz parte de uma estratégia maior da China para ampliar sua influência na América Latina.
Por que isso importa?
Essa lógica está alinhada à Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative), que, mesmo sem adesão formal do Brasil, já influencia projetos estratégicos no país, como linhas de transmissão, parques solares e infraestrutura logística.
O dumping chinês é parte de uma estratégia geopolítica para consolidar influência e liderança tecnológica. Cabe aos líderes de Supply Chain adotar uma postura proativa, garantindo resiliência e soberania na cadeia de suprimentos do setor elétrico brasileiro.
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